A paz em Angola e seu impacto regional
|
 |
| O abraço histórico
entre o Presidente José Eduardo dos Santos e o General
da UNITA Kamorteiro |
|
Por
João Bernardo de Miranda
Ministro das Relações Exteriores de Angola
O conflito Angolano foi ao longo das últimas três décadas
um dos principais factores de instabilidade na África Austral,
não apenas pela sua intensidade mas sobretudo pela dimensão
do envolvimento externo.
Seria um crasso erro de análise fazer-se uma abordagem do
conflito Angolano e das suas implicações, descontextualizando-o
da conjuntura regional e internacional, e sem uma incursão
histórica na sua génese.
Em Março de 1975, quando eclodiram as primeiras confrontações
entre os movimentos de libertação em Angola, depois de 14
anos de luta contra a dominação colonial Portuguesa, a guerra-fria
estava no seu auge: as superpotências, digladiavam-se pela
conquista de zonas de influência, através do estabelecimento
ou reforço de alianças estratégicas quantas vezes com regimes
segregacionistas, torcionários e ditadores, ou com organizações
político militares cujos líderes, obcecados pelo poder,
procuravam atingi-lo a qualquer custo.
A localização geoestratégica de Angola, porta de entrada
para a África Austral- região então marcada pelo conflito
que opunha os movimentos de libertação anti-apartheid aos
regimes minoritários aliados do ocidente; a par de ser um
dos principais fornecedores mundiais de petróleo, tornaram-na
numa peça fundamental no quadro da estratégia dos contendores
da guerra-fria. Por outro lado, a postura de Angola de apoio
aos movimentos de guerrilha que se batiam contra os últimos
redutos do colonialismo na África Austral constituía uma
séria ameaça a existência desses regimes.
Foi neste âmbito que se arquitectou a estratégia política
e militar contra Angola na tentativa da sua transformação
numa zona da esfera de influência de um dos contendores
da guerra-fria. O objectivo principal era, obviamente, o
derrube do regime então instituído, através do apoio bélico
a determinadas organizações armadas, para manter um clima
permanente de instabilidade militar; o enfraquecimento da
sua economia, coarctando a possibilidade de acesso ao crédito
junto das instituições financeiras internacionais, e o seu
isolamento diplomático internacional.
A aplicação dessa estratégia embora visasse igualmente os
países da região que serviam de bases de apoio aos movimentos
anti-apartheid, era mais acentuada em relação a Angola,
pelas razões acima expostas. Angola viu-se assim na contingência
de recorrer a ajuda militar internacional, nomeadamente
de Cuba, para a defesa da sua integridade territorial e
soberania.
A subsequente alteração do quadro militar em Angola e consequentemente
na região, particularmente a derrota do exército Sul Africano
na batalha do Cuito Cuanavale (sudeste de Angola) em 1987,
forçou a alteração da estratégia do ocidente e da África
do Sul, que optou por negociar o fim do seu envolvimento
militar directo no conflito Angolano. Foram assim concluídos
os Acordos de Nova York, em Dezembro de 1988, que permitiram
a cessação das hostilidades militares entre Angola e a África
do Sul, a retirada das forças Sul Africanas que ocupavam
o sul de Angola desde 1982 e o início da descolonização
da descolonização da Namíbia.
Os Acordos de Nova York alteraram de maneira positiva o
cenário militar e político em Angola e na África Austral.
O regime do apartheid chegou a conclusão da sua insustentatibilidade
e enveredou por um processo de abertura política e de democratização.
Para os restantes países da região que se congregaram, inicialmente,
no seio da "Linha da Frente", mecanismo de concertação política
e diplomática para harmonizarem os seus esforços na luta
pela descolonização da região e, posteriormente, a nível
da SADCC, para lutarem contra a dependência económica da
África do Sul, o novo quadro pós - acordos de Nova York
tornou-se num balão de oxigénio para as suas economias seriamente
debilitadas pelas dificuldades na atracção de investimento
estrangeiro, devido ao clima de instabilidade regional,
na circulação intra-regional, por na sua maioria serem países
encravados, e na implementação de projectos para facilitar
a integração económica regional.
 |
|
| Lusaka foi a terceira
grande cimeira mediada pelas Nações Unidas na busca
pela paz |
|
O facto de Angola estar
filiada nas duas principais organizações de integração regional
da África Central e Austral, respectivamente a Comunidade
Económica dos Estados da África Central (CEEAC) e a SADC,
obviamente, criou dificuldades durante muitos anos no pleno
funcionamento desses organismos, devido a situação de guerra.
A inserção de Angola na África Central e Austral não traduz
nenhuma pretensão de liderança regional, é apenas motivada
pela necessidade de protecção e defesa dos seus interesses
económicos e de segurança que não poderão ser feitos isoladamente
mas sim num quadro de parceria e aliança, bem como deriva
dos históricos laços culturais com os povos dessas regiões.
É preciso reconhecer que Angola é um dos países fortes em
ambas regiões, com um elevado potencial económico, que agora
começa a ser desenvolvido, e militar, e que exerce uma grande
influência política, pelo que não deve ser descurada no
tratamento dos principais assuntos regionais.
Com o alcance da paz em Angola, a região Austral de África
está livre de conflito militar, pela primeira vez na sua
história, o que proporcionará uma harmoniosa implementação
dos instrumentos jurídicos que servem de base ao processo
de integração política e económica . Total atenção poderá
agora ser dada pela região a implementação do Protocolo
do Comércio que seguramente permitirá o incremento das trocas
comerciais intra-regional, maior circulação de pessoas e
bens e maior abertura dos mercados dos países membros da
SADC para os produtos da região.
Embora ainda não dispomos de projecções estatísticas sobre
o desempenho económico regional com o incremento da participação
de Angola na sua economia, acreditamos sem margem de dúvidas
de que nos próximos tempos haverá um significativo crescimento
dos índices económicos dos países da África Austral.
Mas persistem outros sérios desafios para a região, que
se prendem com a consolidação da paz e segurança, através
aperfeiçoamento do seu sistema regional de prevenção e gestão
de conflitos, e combate `as redes terroristas e do crime
transnacional organizado, as quais tenderão tirar partido
do franqueamento das barreiras na circulação transfronteiriça
na região.
Em relação a África Central, região que ainda enferma de
algumas convulsões políticas e militares, a instauração
da paz em Angola tem estado a influenciar no sentido positivo
a resolução do conflito na RDC e na região dos Grandes Lagos.
Angola está assim em condições mais propícias para contribuir
nos esforços de pacificação. Recentemente Angola patrocinou
a conclusão de um entendimento entre a RDC e o Uganda que
prevê a retirada Ugandesa do território Congolês e a normalização
das relações de boa vizinhança e de confiança entre os dois
países.
A segurança, estabilidade e o desenvolvimento dos povos
da África Central e Austral está intrinsecamente ligado
a capacidade das lideranças dos seus países em criarem Estados
fortes, comprometidos com a democracia, os direitos humanos
e a justa repartição da riqueza nacional. O Governo Angolano
sempre esteve comprometido com esses valores e a nova era
de paz oferece pela primeira vez desde que foi eleito a
oportunidade de trabalhar dispondo do controlo da totalidade
do território e dos seus recursos humanos e naturais.
Nova Presidência da SADC
|
| Foto:
Angop |
 |
| Presidente
Angolano José Eduardo dos Santos, Chairman da SADC |
|
Por
Albina Assis Africano
Conselheira Especial do P.R. para Integração Económica Regional
Ao efectuarmos uma análise sobre as perspectivas de Angola na presidência da SADC, necessário será balancearmos ou melhor revermos a história da nossa organização regional desde a sua criação.
A Conferência de Coordenação para o Desenvolvimento da África Central (SADCC), antecessora da actual Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) resultou de esforços concentrados entre os então países da Linha da Frente, para: a resolução pacifica de conflitos; a harmonização de acções de cooperação internacional num quadro de estratégia e libertação económica da região; o fortalecimento dos laços destinados a criar uma genuína e equitativa cooperação regional a redução da dependência económica da África do Sul, que na altura se encontrava sob o regime anti-democrático do apartheid.
Contudo profundas alterações a nível da política internacional, com implicações nas relações económicas mundiais, exigiram de cada vez mais, por parte dos países em vias de desenvolvimento, a criação de formas harmoniosas de cooperação, sobretudo para aqueles que se localizavam em zonas geograficamente comuns, permitindo a sua participação de forma competitiva na economia mundial bem como uma melhor defesa dos efeitos nem sempre imediatamente benéficos da globalização.
A luz desta realidade, os Chefes de Estado e de Governo da SADCC, reunidos em Windhoek, Namíbia em Agosto de 1992, adoptaram a Declaração e o Tratado que estabeleceu a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), cujo objectivo se consubstancia na verdadeira integração económica regional.
A SADC, através da Declaração de Windhoek no âmbito do seu Tratado, tem como objectivos essenciais a criação de um espaço político económico com o fim de promover e defender a paz e a segurança como pressupostos para a implementação e consolidação da democracia; promover o desenvolvimento e crescimento económico sustentável, com vista a melhoria da qualidade de vida, sem descurar a atenuação da pobreza e desenvolver gradualmente valores, sistemas e instituições comuns.
Estes princípios estão preconizados na nova Agenda Comum e na nova Visão da SADC.
Não obstante a SADC ser considerada como o bloco regional mais promissor em África, a nossa organização tem encontrado alguns constrangimentos ao longo da sua existência, como a fraca comunicação entre os seus Estados Membros; a inexistência de fontes próprias de financiamento; a necessidade de recursos humanos qualificados e em maior numero e a não existência efectiva de um quadro de conexão entre as instituições estatais e privadas tendo como resultado a fraca participação do empresariado regional no processo de integração.
Este diagnostico conduziu a necessidade de uma profunda reestruturação dentro da organização que se iniciou há cerca de dois anos e que prossegue os seus trâmites de modo a criar um sistema centralizado onde poderão ser optimizados, os programas, os recursos financeiros e humanos bem como os investimentos e a manutenção da organização.
PERSPECTIVAS DE ANGOLA NA PRESIDÊNCIA DA SADC
Angola prepara-se para assumir a presidência da SADC em Outubro de 2002, pelo que uma reflexão deverá ser feita sobre a sua actuação a nível interno e externo, assim como os benefícios que daí poderão advir a nível regional e nacional.
2.1 NO PLANO INSTITUCIONAL
Angola deverá fazer uma demonstração de engajamento e participação efectiva na SADC ao proceder a assinatura, ratificação e adesão aos vários instrumentos de cooperação da organização, (Declaração, Protocolos e Memorandos de Entendimento).
No quadro na actual reestruturação, a que se deverá dar continuidade, exigirá não só um conhecimento profundo das acções já implementadas com vista a sua consolidação, como a preparação e colocação de quadros qualificados para que a sua presença se faça sentir em todos os sectores da vida desta organização, no âmbito da nova estrutura da SADC.
Entretanto, uma vez que está criado o Comité Nacional, como órgão de ligação e de desenvolvimento das acções da SADC a nível nacional, importante será que o mesmo seja convenientemente estruturado e permita o melhoramento da actuação de Angola na SADC.
A conexão entre o Comité Nacional e o Secretariado Executivo deverá ser permanentemente e eficiente.
Nunca é demais realçar que o Comité Nacional de Angola deverá trabalhar no sentido do estabelecimento de uma rede contínua de comunicação entre o Secretariado Executivo da SADC, o país e Sua Excelência Sr. Presidente da República na qualidade de Presidente da organização.
2.2 NO PLANO SÓCIO-ECONÓMICO
Analisando de forma sucinta os aspectos sócio-económicos das organizações, poderão ser adoptadas como prioritárias as seguintes acções, devidamente previstas no Plano Indicativo em Desenvolvimento Regional (RISPD) que constitui a base das estratégias e prioridades da Agenda Comum da SADC:
Melhoria e resolução da situação dos refugiados;
Combate ao HIV/SIDAS e outras endémicas como a malária;
Melhoria da gestão dos recursos humanos;
Programa de redução da pobreza;
Programas para a melhoria de saúde e bem-estar social e
Promoção da igualdade do género.
No que respeita as perspectivas de nível económico, poderá ser dado um impulso a criação do Fundo de Desenvolvimento Regional, como um mecanismo de auto-financiamento da SADC; poderá proceder-se a consolidação da acção da Câmara de Comércio da SADC como um meio de apoio ao financiamento regional, a promoção do empresariado e ao desenvolvimento do sector privado.
Poderá ser dada continuidade a implementação da política de convergência económica em curso.
2.3 NO PLANO POLÍTICO-DIPLOMÁTICO
No aspecto político Angola poderá centrar a sua actividade na promoção da paz e estabilidade regional, defesa dos direitos humanos e consolidação da democracia.
O Órgão para Coordenação Política, Defesa e Segurança, deverá continuar a concentrar os seus esforços nas questões de paz e segurança, reforço e capacidade de manutenção da paz e prevenção de conflitos na região.
A participação activa da sociedade civil no processo de decisão poderá vir a contribuir para o reforço da democracia que se pretende que seja sólida e duradoura, assim como apoiar a política de reconciliação pós-conflitos.
No campo diplomático poderá ser dada prioridade a cooperação já existente entre a SADC /União Europeia e SADC/EUA, através das acções resultantes dos acordos já existentes e outros que possam vir a ser rubricados.
Outros aspectos de cooperação multilateral poderão ser analisados como as negociações com Mercosul, com a Organização Mundial do Comércio e outros.
A nível da Organização das Nações Unidas a presença da SADC é e será sempre importante através da intervenção dos embaixadores regionais sediados nos Estados Unidos de América.
A cooperação no âmbito do apoio a construção e implementação dos programas da recém-criada União Africana e da sua política para o desenvolvimento de África, em termos de parceria, a NEPAD, deverá constituir a chave do posicionamento da SADC no nosso Continente.
Finalmente e como conclusão, poderemos inferir, de tudo o que já foi descrito, que as acções a serem desenvolvidas durante a presidência de Angola na SADC, deverão acima de tudo contribuir para o progresso do processo de integração regional, tendo sempre presente os aspectos contidos na Agenda Comum das SADC, nos quais poderão ser sintetizados como se segue:
Consolidação e manutenção da democracia, paz e estabilidade;
Promoção de valores políticos comuns assim como de outros sistemas de valores compartilhados que sejam transmitidas por instituições democráticas legitimas e eficazes e;
Promoção de um crescimento económico e desenvolvimento sócio-económico sustentáveis e equitativos que garantam o alívio da pobreza e a sua erradicação como objectivo último.
Foram igualmente aqui definidas as prioridades em termos das estratégias recomendadas no Plano de Desenvolvimento Estratégico Regional (RISDP) que se consubstanciam no seguinte:
Estabelecimento de um mecanismo sustentável e eficaz de prevenção, gestão e resolução de conflitos;
Consolidação da governação democrática;
Desenvolvimento de medidas dirigidas ao alívio da pobreza com o fim de se atingir a sua erradicação;
Desenvolvimento agrário e a utilização sustentável dos recursos naturais,
Desenvolvimento de um mercado comum através de uma abordagem progressiva ao mesmo tempo que se reestruturam e se integram as economias dos Estados Membros;
Harmonização de políticas macroeconómicas sãs e manutenção de um ambiente conducente tanto ao investimento local como estrangeiro;
Desenvolvimento de políticas deliberadas de industrialização;
Formação e desenvolvimento de infra-estruturas sócias económicas;
Desenvolvimento, utilização e gestão dos recursos humanos;
Implementação do conceito do Género no processo de integração;
Consolidação dos mecanismos de prevenção das calamidades naturais e de gestão das mesmas;
Desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia da Investigação e do Desenvolvimento;
Luta contra o HIV/SIDA e outras endemias nomeadamente a malária e
Estabelecimento do programa para o melhoramento do nível de saúde e bem-estar social.
Concluímos, dizendo que a implementação de todos estes programas, deverá ser desenvolvida nos diferentes Estados Membros com uma certa flexibilidade, de modo a adoptarem-se mecanismos particulares, sempre que as situações especificas nacionais assim o exijam, mas sem que se comprometam os objectivos preconizados no processo de integração regional.
|